Atividade Física e Mindfulness

Hoje eu queria compartilhar uma experiência para mim inusitada, mas provavelmente comum para a atletas de alta performance.

Não sei se você chegou a ler a Revista Super Interessante deste mês de setembro, em que Mindfulness estampa a capa. O início da reportagem começa falando sobre o estado de FLOW, conceito e assunto comum da Psicologia Positiva.

E então, inicia uma série de exemplos relacionados ao esporte, mais especificamente, ao estado de flow na prática esportiva e sua consequente evolução, por conta da concentração, do estado mental focado.

Nunca vi nenhum artigo que correlacionasse flow e mindfulness em português, mas o assunto é bastante comum fora. Todavia, nem de longe se trata da mesma coisa, ou são utilizados para o mesmo fim. Existem sim algumas similaridades, com o elevado grau de atenção e foco, a mesma repercussão dentro da Psicologia Positiva e o bem-estar psicológico que resultam. Mas, é importante entender que flow é flow e que mindfulness é outra coisa!

Não quero me adentrar muito neste assunto agora, vou deixar para explora-lo em outro momento, mas quero enfatizar a diferença entre ambos: uma pessoa pode entrar em flow durante uma atividade qualquer, enquanto que a atenção plena é possível desenvolver, cultivar, através de diferentes exercícios mentais. Na prática de mindfulness, trazemos a atenção para dentro de forma frequente, enquanto que o flow é uma forma de realizar uma atividade, a atenção está voltada para a atividade.

Atividade Física

É comum a instrução de práticas de atividades físicas em mindful, por assim dizer. Em todos os programas baseados em mindfulness é possível observar alongamentos, práticas de yoga e caminhadas que devem ser realizadas cultivando a atitude mindfulness. Eu já tive minhas experiências, já acompanhei diversas experiências de outras pessoas (alunos, pacientes, amigos), mas nunca tinha levado isso para dentro da academia.

Cuidar do corpo e da saúde física é um dos elementos que contribuem para nossa felicidade e eu levo isso muito a sério, principalmente pela minha profissão, que me faz passar grande parte do meu dia sentada. Frequentemente, eu intercalo exercícios de fortalecimento muscular e treinamentos aeróbicos.

Nesta segunda feira, resolvi fazer uma aula de spinning. As distrações eram variadas e intensas: música alta, luzes coloridas, professor gritando para motivar os alunos, diferentes ritmos de pedalada. Percebi que eu passei um longo tempo pensando: "o que estou fazendo aqui?" Olhava para o relógio e os minutos pareciam não passar. Eu já tinha feito minha meditação formal logo cedo, mas resolvi entender o porque minha cabeça começou a me bombardear tantos pensamentos.

Por que estava, sem querer, trazendo uma interpretação que era melhor parar? Minhas pernas doíam. A mente e o corpo fogem da dor, é um impulso natural, porém reativo. Entendi o que eu explico tantas e tantas vezes sobre nosso funcionamento físico e sua associação com a mente, emoções e pensamentos. Comecei a analisar o que tinha por trás disso. Minhas pernas ainda queimavam pelo excesso de força no exercício.

Decidi, então, entender essa dor. Entender minha reação à ela. Conclui que todos aqueles pensamentos estavam minando meus sentimentos e, consequentemente, minha motivação. Eu estava tendendo a ir mais lento, a "pegar mais leve". Fiz um body scan para perceber todas as sensações possíveis e foquei em duas que mais me incomodavam: a respiração ofegante e a dor muscular nas coxas.

Tentei unir as duas coisas: levei a minha respiração até as coxas. Não para aliviar a dor, mas para poder senti-la de verdade, entender como ela era, percebê-la por completo. Não sei dizer por quanto tempo fiquei nisso... Continuei a aula no automático, subindo e descendo, com muito ou pouco peso, mas com a atenção 100% nas minhas pernas e na respiração como âncoras para o momento presente, para entrar na atividade por dentro e a minha mente... se calou!

Os pensamentos se calaram! Só percebi isso depois... aquela tortura de ficar olhando os minutos passarem no relógio, os pensamentos pessimistas e desencorajadores, as auto-críticas, as tentativas de fazer daquele momento um momento bacana, absolutamente tudo cessou. Foi uma experiência incrível, que mudou do "meu Deus, não vou conseguir fazer isso" para o :"nossa, a aula já acabou".

Vindo pra casa, com algum trabalho para fazer, resolvi dar uma pesquisada no amigo Google pra ver se seu encontrava algo relacionando mindfulness e treinos de resistência ou alto impacto.

Achados

Sim, pode me considerar a louca dos artigos científicos. Acredito que num mundo que está tudo tão disponível e distorcido, o mínimo que posso fazer é pautar minha opinião e estudos no que a ciência já conseguiu provar. Muitos coleguinhas me dizem que isso é furada, afinal, já foi comprovado que centenas de estudos sobre o cérebro foram refutadas por erros, e enfim. Continuo batendo na mesma tecla. Um estudo dentro de um molde de funcionamento é diferente de constatações empíricas por uma série de motivos, que poderiam facilmente encher este post.

Logo, gosto muito de associar o que eu penso e minhas experiências ao que já foi constatado cientificamente. Nesta busca, para entender melhor como seria a adaptação das técnicas de mindfulness à prática de atividade física, achei um artigo (1) que constatou que esta aplicação é um desafio, mas que poderia ajudar as pessoas a terem uma melhor adesão à atividade física e à uma vida mais saudável, além de contribuir gradativamente para a autoeficácia.

Um outro estudo (2) revisou sistematicamente vários outros estudos que correlacionavam mindfulness e atividade física e concluiu que o desenvolvimento da atenção plena pode desenvolver uma capacidade maior para entrar em estado de Flow (fluxo) durante a atividade física, o que melhora não só o desempenho esportivo, mas também o bem-estar psicológico associado à ele.

Um artigo publicado no New York Times (3) diz que a prática de mindfulness pode ajudar as pessoas a terem prazer pela atividade física - e se você analisar bem o meu próprio relato, vai entender porque. O artigo ainda menciona alguns estudos relevantes que mostram a associação entre estar consciente e a satisfação com a atividade física. Um amplo campo de estudo e pesquisa está aberto.

Além disso, mindfulness já tem sido utilizada como técnica para eliminação e/ou manutenção de peso, dentro de programas específicos relacionados à alimentação. Tudo leva a crer que a implementação de mindfulness em nossa vida diária pode ter um efeito benéfico em todas as áreas da nossa vida.

Referências Bibliográficas

1. Kennedy, A.B., Resnick, P.B. Mindfulness and Physical Activity. AMERICAN JOURNAL OF LIFESTYLE MEDICINE January 6, 2015

2. Rivera, O., Quintana, M., Rincon, M. Effects of mindfulness on sport, exercise and physical activity: a sistematic review. International Conference on Physical Education and Sport Science, At Paris, France,, Volume: 77, 06/2011

3. Vide: http://well.blogs.nytimes.com/2015/02/18/how-mindfulness-can-jumpstart-our-exercise-routines/?_r=0

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